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"Meu Destino é Ser Star - Ao Som de Lulu Santos" e sua falta de destino

22 Mar 2019

 

 

 

 

Dando continuidade à apropriação de repertório de grandes cantores da nossa música brasileira para compor espetáculos, a Aventura Entretenimento esse ano trouxe na esteira de “Romeu e Julieta – Ao Som de Marisa Monte” o musical jukebox “Meu Destino é Ser Star – Ao Som de Lulu Santos”, que estreou no Rio de Janeiro e está em cartaz em São Paulo, no Teatro Frei Caneca.

 

No espetáculo, Myra Ruiz, Mateus Ribeiro, Jéssica Ellen, Gabriel Falcão, Ana Elisa Schumacher, Helga Nemetik, Carol Botelho, Leonardo Senna, Marina Palha e Victor Maia interpretam a si mesmos dentro do texto composto por Diego de Angelli, Leonardo Muniz e Renato Rocha, com o intuito de mostrar ao público os bastidores de um musical, pondo em pé no palco as dores dos atores e criadores durante todo o processo antes de finalmente a cortina subir.

 

Os intitulados jukebox-musicals, essa avalanche pós-moderna do gênero, que são espetáculos que se utilizam de catálogos de músicas de cantores ou bandas famosas (Mamma Mia!), são formados por três variedades: os semi-biográficos, os que prestam tributos e os ficcionais, que é o caso desta e da produção anterior da Aventura Entretenimento. O historiador George Rodosthenous escreveu no Manual de Oxford sobre Musicais Britânicos que esse considerado subgênero de teatro musical tem por obrigação possuir um texto sólido e um repertório musical escolhido de maneira dramatúrgica que compense a perca de cerca de setenta por cento de lirismo que a falta de músicas originais causa, se não fizer isso, não é nada senão um show velado de celebração ao ídolo representado. É mídia sem intuito artístico.

 

E é por isso que “Meu Destino é ser Star” se despenca totalmente nesse conceito. O texto se contraria na própria proposta, que é sobre a criação de um espetáculo e suas dificuldades, acabando por se tornar inalcançada e se perder absolutamente entre os subnúcleos desenvolvidos pelos integrantes do elenco que vão sendo adicionados à trama, retornando apenas quando é conveniente adicionar um hit famoso de Lulu Santos em um momento de penumbra do papel da diretora, interpretada por Helga, só para falar que os escritores não se esqueceram tanto assim de seu objetivo inicial.

 

E como perder-se da proposta não fosse o maior crime dramatúrgico, a narrativa falha também ao tentar expressar os problemas interpessoais de cada personagem que criaram esse desvio, deixando cada vez mais claro a única intenção do musical: cantar as músicas de Lulu Santos. O triângulo amoroso que se forma entre Myra e Gabriel com a chegada de sua ex-namorada, Jéssica, nos faz ver como é crítico um clichê mal escrito e como se torna entediante aquele vai-e-não-vai juvenil que termina no óbvio. Ou também a pena que é a falta de profundidade nos problemas de Carol, uma artista crua que tentar provar seu amor pelo teatro para o pai (Leonardo Senna), totalmente deixada em segundo plano pela narrativa, como se esse tipo de viés não fosse um dos mais recorrentes e interessantes de ser explorado em largo contexto, ao invés de dar enfoque ao drama adolescente recorrente e irrelevante do trio de protagonistas. Marina Palha, fazendo a figura competitiva e também cômica, é outro enredo básico que tenta ganhar profundidade em apenas um solo muito bem interpretado, mas que, infelizmente, não passa nem perto de ser o suficiente para você entender como funciona a mente de um personagem assim. A subtrama de poliamor e bissexualidade, também, é outra que fica à deriva, e termina tão má conduzida do que quando iniciada, dando ênfase mais uma vez no desperdício de material criativo.

 

Em 2h30, o espetáculo acaba não indo para lugar algum. Os seus personagens não são explorados, não há uma dimensionalidade, um apego, uma dedicação. Os valores que tentam ser inseridos, como as mazelas de ser um artista, morrem na periferia da nossa memória recente e acabam tão forçados quanto toda a intenção do musical. A fragilidade e falta de estrutura são tamanhas que sequer o roteiro consegue montar uma cena bem cabida de uma audição ao-vivo que acontece toda sessão, com uma pessoa que se inscreveu através da internet durante o processo de criação do espetáculo, uma das inovações panfletadas pela Aventura, e que no final da temporada será selecionada para fazer o próximo musical da produtora. Com o concorrente levantando-se da plateia e subindo ao palco de repente, a cena deslocada começa e termina do nada, sem uma explicação clara, e deixa todo mundo sem saber o que aconteceu exatamente e com a estranha sensação de ter perdido algo.

 

E no final das contas, o que vemos é o maravilhoso papel de cada um dos atores que tiram água de pedra e colocam mais de suas experiências pessoais no meio de suas atuações do que o texto raso feito a seis mãos, oferece. É bonito de ver Helga Nemetik falar sua verdade como uma artista de longa carreira em seus momentos de monólogo, dando peso e significado as palavras. Sem voos ou maneirismos industrializados que não desqualificavam, mas o ocultavam um pouco, vemos Mateus Ribeiro como um ator, despido, livre para criar um personagem só seu, do zero, fazendo o seu melhor ao trazer o máximo do pouco que lhe foi dado. E fazendo sua estreia num musical, Jéssica Ellen carrega o holofote de um lado para o outro no palco, fazendo-se merecidamente o centro das atenções com sua presença e conforto dentro do gênero. Outro nome que merece destaque é o de Myra Ruiz que, dessa vez, se apresenta em cena como uma performer, entregando voz e dança de maneira profissional, honrando todo o esforço pregresso, uma vez que o texto não lhe dá muita oportunidade dramatúrgica. Embora todo o elenco se trate de excelentes cantores e atores, o texto, mais uma vez,  coloca os demais em escanteio pela falta de profundidade e momentos cênicos.

 

 

 

 

As músicas de Lulu Santos por vezes não cabem dentro da narrativa proposta pelo trio, que inclui o também diretor Renato Rocha. Apesar do trabalho muito bem feito de Felipe Habib (diretor vocal) de repensar a maneira como cada sucesso do cantor tem que ser cantado para se apresentar dentro de um espetáculo, as músicas soam fora de lugar, com propósitos sem relação, que não acrescentam nada senão reforçar o que foi dito antes. Entre quarenta músicas, temos medleys, reprises, encores espremendo-se em poucas horas, como se a intenção fosse traçar uma linha do tempo desde o primeiro hit de sucesso do início da carreira do cantor e fazer o público vibrar, ao invés de cantar a história encenada.

 

A direção musical de Zé Ricardo se emenda e finalmente consegue dar alguma direção estrutural à obra, com arranjos mais completos e reforçados, adicionando bases sintetizadoras para criar um som mais imersivo e pop sem tornar as famosas melodias do astro brasileiro indiscerníveis a todos.

As coreografias de Victor Maia são desperdiçadas e nada acrescentam ao espetáculo, possuindo a única função de empurrar o tempo da história com suas sequências de ensaios do musical que os personagens estão prestes a estrear, inclusive ele mesmo, que também mostra seu talento convicto para cantar e atuar, tanto quanto dançar, com seu timing cômico que arranca risadas.

 

Junto a isso, ainda, a cenografia desenvolvida por André Cortez que consiste em quatro estruturas metálicas de dois andares, como andaimes ao fundo, com prateleiras repletas de elementos domésticos, não são nada eficientes e se adequam apenas quando surgem as cenas que mostram o escritório de Leonardo Senna, fora isso não estabelecem diálogo algum com a vida de seus personagens. Essa falta de guia atinge até mesmo os figurinos de Bruno Perlatto, que são compostos em sua grande maioria por roupas de ensaios, e que quando tem a oportunidade de revelaram a sua identidade na tão aguardada cena final do espetáculo intitulado como “Toda a Forma de Amor”, que os personagens estão tanto construindo, erra novamente ao apresentar modelos avant-garde, desconstruídos, que não ajudam a explicar absolutamente nada do que se tratava tudo isso afinal.

 

Sendo assim, juntando tudo isso, em análise, não só é para não ser levado a sério e bandeja de puro entretenimento , como se pudéssemos nos dar ao luxo igual na Broadway, quanto “Meu Destino é Ser Star – Ao som de Lulu Santos” é um roteiro dos anos 2000 da novela Malhação, repleto de seus clichês cansativos e desinteressantes; acontecendo dentro da sala de coral da série norte-americana “Glee”, falando dos seus problemas de jovens querendo crescer e se tornar estrelas; com a proposta midiática de ser o episódio piloto da série “Smash”, que evidencia realmente os bastidores de um espetáculo da Broadway; e com a intenção inalcançada de mostrar o amor à arte e a complexidade pessoal de seus protagonistas no intuito de realizar um sonho, como o aclamado musical “A Chorus Line”.

 

 

 (fotos|Caio Gallucci/Divulgação)

 

 

SERVIÇO:

 

Onde: Teatro Shopping Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569 – Shopping Frei Caneca, 7° andar)/São Paulo

 

Quando: de sexta, às 20h; sábado, às 16h e 20h; domingo, às 19h

 

Quanto: de R$ 50 a R$150

 

 

 

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