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Espetáculo "Aparecida - O musical" se revela corajoso e bem-sucedido

9 Apr 2019

 

 

 

Produzir musicais 100% autorais no Brasil, sem recorrer ao jukebox, se mostra um desafio, mas que vem sendo cada vez mais explorado por aqui. Tem sido comum vermos este tipo de espetáculo em cartaz principalmente no eixo Rio-SP. No último dia 22, por exemplo, a capital paulista abriu as cortinas para “Aparecida – um musical por Walcyr Carrasco” que cumpre este papel, ao contar em formato inédito, a história da santa que antes já havia sido vista em outros formatos, na televisão em “A Padroeira”, e no cinema, em “Aparecida: o milagre”.

 

Vinculada ao catolicismo, Nossa Senhora da Conceição Aparecida é uma figura muito importante da fé brasileira. Segundo narra a história, durante uma difícil pescaria no ano de 1717, três pescadores clamaram a intercessão da Mãe de Deus para que conseguissem alguns peixes que serviriam na recepção do Conde de Assumar. Ao lançar as redes, emergiu das águas do Rio Paraíba do Sul o corpo da imagem de uma mulher negra. Após lançarem novamente as redes, a cabeça veio à superfície completando a figura de Nossa Senhora como conhecemos hoje. Logo depois da aparição da santa, ocorreu o primeiro milagre, uma quantidade abundante de peixes apareceu na região e deu ao povo o que tanto suplicavam.

 

No espetáculo em cartaz no Teatro Bradesco, essa famosa história de mais de 300 anos se intercala com a atualidade através de um jovem e bem-sucedido casal. Caio é um advogado notável que se vê desolado após o diagnóstico de um câncer no cérebro, o tratamento de radioterapia acaba lhe custando a visão. Clara é uma profissional renomada que acaba se tornando o porto seguro do marido, injetando otimismo e esperança no homem que se torna cada vez mais amargo e inconformado. Em paralelo a isso, quase que em flashbacks, acompanhamos a trajetória da personagem-título desde o encontro da imagem, passando por milagres, como o do escravo que teve sua liberdade alcançada, até os dias atuais onde as duas tramas se encontram.

 

A história da santa traz grandes momentos ao musical e se mostra mais interessante que a do casal protagonista. Os dados históricos distribuídos entre o coro e personagens conta muito bem a trajetória dessa emblemática figura cristã. Enquanto as cenas de Caio e Clara não são entusiasmantes justamente por estarem em um contexto isolado que não dialoga com o panorama geral da obra. O ciclo narrativo é repetitivo, previsível e logo nos primeiros minutos sabemos que depois da cena do casal, eles terão um número musical seguido de um número com mais uma parte da história da santa, acabando assim por não criar grandes surpresas na trama desenvolvida pelo novelista. Essa relação desarmônica quebra um pouco o andamento da peça, pois quando o público está sendo inserido em um dos universos criados, logo somos levados a outro.

 

Bruna Pazinato - que já havia chamado a atenção do público com a vingativa Nefertari no musical “Os Dez Mandamentos” –, constrói uma personagem encantadora e que ganha a empatia do público nos primeiros momentos quando o drama de sua Clara se inicia repentinamente. Enquanto isso, em reflexo, Leandro Luna – veterano dos musicais - é correto, tanto nas cenas, quanto nos números musicais, porém sem grandes chances de mostrar o seu potencial. A sucessão de infortúnios de seu personagem acaba tirando um pouco do brilho dele e encontrando no carisma de sua parceira de cena uma forma de atenuar o arco dramático.

 

Engana-se quem pensa que o musical tem caráter doutrinador, pois ele se mostra mais uma homenagem à padroeira do Brasil do que uma ode à igreja católica. Aqui a pauta é mais a devoção que cerca essa figura enigmática do que sobre a religiosidade em si, pois Aparecida tem um apelo inter-religioso e se tornou internacionalmente conhecida exatamente pela quantidade de fiéis que possui. O prólogo do espetáculo é um bom exemplo disso. A procissão cantada traz referências do canto gregoriano, muito famoso nas igrejas e mosteiros. Para quem tem um certo apego à Aparecida, a cena promete arrepio e olhos marejados, justamente por unirem simplicidade e beleza em um número inicial.

 

 

 

 

E com 20 canções compostas por Carlos Bauzys e Ricardo Severo, as letras são bem escritas e contribuem para mover a história, com melodias que refletem um pouco de brasilidade, não tão somente na orquestração, quanto também através da percussão corporal e dos arranjos.

 

Todos os dados históricos do musical são narrados por um timbre grave incrível, o dono da voz é Edson Monttenegro, que chega a lembrar o saudoso Cid Moreira com sua entonação inconfundível. Outro nome que merece destaque é Maurício Xavier, no papel de Zacarias, com sua interpretação visceral do escravo que anseia por liberdade. Um dos momentos mais impactantes do musical é protagonizado por Arthur Berges, que encarna o iconoclasta que cometeu um atentado contra a imagem da Santa quebrando-a em muitos pedaços. O perfil psicologicamente desestabilizado já foi explorado pelo ator em outros espetáculos e aqui se alia a um poderoso - e agudo - solo que aumentam a tensão do momento retratado.

 

A qualidade do coro, somada aos arranjos elaborados que esbanjam aberturas de vozes, são responsáveis por emoldurar a narrativa e podem ser considerados um ponto alto do musical. Fica por conta deles também uma boa parte da mudança de cenários de Richard Luiz que caprichou no trabalho e entrega uma cenografia bonita, funcional, bem resolvida e fiel à estética da Basílica.

 

Um dos recursos utilizados é a projeção em momentos pontuais. Ela funciona bem principalmente na cena da restauradora Maria Helena (Nabia Villela), em que durante a música são projetadas as imagens reais da Santa após o então já citado atentado. A ferramenta traz um ar documental interessante, afinal, estamos falando de uma história verídica. A iluminação de Cesar de Ramires – assim como o cenário – se faz de forma objetiva. Os figurinos de Fábio Namatame remetem, em certos aspectos, muito ao visual do hit americano “Hamilton”, mostrando uma estética mais colonizadora do que nacional. O vestuário do Brasil é rico em cores, texturas, amarrações e faltou um pouco disso na imensidão branca criada pelo premiado figurinista. Embora visualmente bonito, num musical que fala tanto sobre identidade regional, a expectativa era ver um outro caminho sendo trilhado.

 

Entre erros e acertos, como em qualquer outra produção, “Aparecida – o musical” se revela uma tentativa corajosa e bem-sucedida de uma produção completamente autoral. Com um tema tão popular seria muito cômodo recorrer a materiais já existentes para contar essa história, mas não é o que acontece com o espetáculo dirigido por Fernanda Chamma e sob a produção de Eurico e Maria Helena Malagodi. A montagem é menor do que os grandes espetáculos que vêm de fora, mas encontra na regionalidade uma forma graciosa de conversar com seu público, seja ele pertencente ao grupo dos curiosos que encontraram no musical uma fonte de entretenimento, ou pertencente ao grupo dos cristãos/católicos que terão maior identificação com o tema retratado.

 

 

 

 (fotos|Adriano Doria/Divulgação)

 

 

SERVIÇO:

 

Onde: Teatro Bradesco (Rua Palestra Itália, 500 – Bourbon Shopping, 3° andar)/São Paulo.

 

Quando: de sexta, às 21h; sábado, às 16h e 21h; domingo, às 15h e 19h30.

 

Quanto: de R$ 75 a R$220 (com meia entrada)

 

 

 

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